A saída da Netflix da disputa pela Warner Bros. Discovery, anunciada no fim de fevereiro, surpreendeu Hollywood, mas não a liderança da plataforma. Em entrevista à Bloomberg News, o co-CEO Ted Sarandos revelou que a decisão de não cobrir a oferta rival já estava traçada antes mesmo da proposta da Paramount Skydance ser oficializada. "Soube na hora […] nós sabíamos exatamente o que iríamos fazer", declarou o executivo, enfatizando que a companhia manteve a disciplina estratégica diante do cenário competitivo.
De acordo com Sarandos, a Netflix operou com uma margem de negociação muito clara e previamente aprovada, o que evitou a necessidade de novas consultas ao conselho de administração após a notificação de uma proposta superior. "Nós tínhamos uma faixa muito estreita dentro da qual estaríamos dispostos a pagar", explicou. "Estou satisfeito com o ponto em que entramos e satisfeito com o ponto em que saímos."
O executivo detalhou que a empresa já havia antecipado diferentes desfechos para o negócio, inclusive alterando a estrutura para pagamento em dinheiro visando acelerar o processo, mas sem romper o teto financeiro estabelecido. "Já tínhamos feito todo o planejamento de cenários. Sabíamos o que queríamos fazer", reforçou.
Críticas ao modelo da concorrência e pressões políticas
Ao comentar a vitória da Paramount Skydance, Sarandos demonstrou ceticismo quanto ao modelo de aquisição baseado em dívidas bilionárias, prevendo um impacto negativo na indústria audiovisual. "Isso significa menos produção, menos gente trabalhando", afirmou, estimando que os cortes de custos possam ultrapassar os 16 bilhões de dólares (cerca de R$ 82 bilhões).
Sobre as resistências enfrentadas durante o processo, que incluíram críticas de sindicatos e setores do cinema tradicional, o CEO negou que pressões políticas tenham motivado a retirada. "Havia uma narrativa crescente de resistência política. Mas seguíamos um caminho regulatório normal", disse ele, confirmando ainda que a investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos foi encerrada: "Estamos liberados".
Futuro e relação com os cinemas
Apesar do desfecho, Sarandos acredita que a negociação aproximou a gigante do streaming dos exibidores cinematográficos, sinalizando uma possível abertura para novos modelos de lançamento em salas físicas. "Acho que vamos achar um monte de coisas legais para fazer juntos daqui para frente", projetou. Ele observou que o setor vive um momento de instabilidade e que "as pessoas, na realidade, não queriam que a Warner fosse vendida para ninguém".
Encerrando o assunto, o executivo reiterou que, embora o ativo fosse estrategicamente interessante, a Netflix não dependia dele para crescer. "Nós definitivamente queríamos esse ativo. Não precisávamos dele", pontuou, concluindo que a saída rápida foi a escolha mais racional. "Alguém ia perder esse negócio por um dólar. E quanto mais rápido você aceitasse isso, melhor." Para os próximos passos, Sarandos foi enfático ao dizer que a empresa focará em crescimento orgânico: "Somos construtores, não compradores".