A morte de Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, após utilizar a piscina de uma academia no Parque São Lucas, na zona leste de São Paulo, reacendeu o alerta sobre os riscos da intoxicação química em ambientes aquáticos, especialmente quando há uso inadequado de produtos à base de cloro.
Segundo testemunhas, alunos relataram um cheiro químico intenso logo ao entrar na piscina, seguido de ardor nos olhos, nariz e pulmões, além de náusea e episódios de vômito. Juliana chegou a ser socorrida e levada a um hospital da região, mas não resistiu após sofrer uma parada cardíaca.
O marido dela, Vinicius de Oliveira, também passou mal e segue internado. Um adolescente de 14 anos foi hospitalizado com bolhas no pulmão e permanece sob cuidados médicos. Outras duas pessoas precisaram de atendimento, mas já receberam alta.
O que causa a intoxicação em piscinas?
Em entrevista à BandNews FM, o químico com doutorado em saúde pública Rogério Machado, da Escola de Engenharia do Mackenzie, explicou que o problema mais provável nesses casos é a superdosagem de compostos clorados, especialmente o hipoclorito de cálcio, um dos produtos mais utilizados no tratamento de piscinas.
“O cloro é um saneante. Ele existe para matar micro-organismos. O problema é quando é usado em excesso ou sem controle técnico. Ele não diferencia micro-organismos de seres humanos”, afirmou.
De acordo com o especialista, o hipoclorito de cálcio é um sal que libera cloro livre quando entra em contato com a água. Em condições inadequadas — como dosagem excessiva, água morna ou ambiente fechado — esse cloro pode se transformar rapidamente em gás tóxico, que se dispersa no ar e é inalado pelos usuários.
Ambiente fechado agrava o risco
Rogério Machado destacou que piscinas localizadas em ambientes fechados ou com pouca ventilação funcionam como uma espécie de estufa, favorecendo a concentração do gás.
“Esse tipo de produto não pode ficar no ar. É obrigatório um sistema de exaustão adequado. Sem isso, o gás se concentra e passa a ser inalado. A pessoa não consegue nem ficar próxima”, explicou.
Segundo ele, o cheiro forte já é um sinal de alerta claro. “Piscina não pode ter odor químico intenso. Se tem cheiro forte, não entra.”
Sintomas de intoxicação por cloro
A inalação de cloro em altas concentrações pode provocar uma série de reações imediatas, que variam conforme a sensibilidade da pessoa e o tempo de exposição. Entre os principais sintomas estão:
- Ardência intensa nos olhos e vias respiratórias
- Tosse, falta de ar e sensação de sufocamento
- Náusea e vômitos
- Dor no peito
- Crises asmáticas e broncoespasmo
- Lesões pulmonares, como inflamações e formação de bolhas
- Em casos extremos, parada cardiorrespiratória
“Pessoas mais sensíveis sentem primeiro. Crianças, idosos e quem tem asma ou rinite podem passar muito mal rapidamente”, alertou o químico.
Falha técnica e ausência de qualificação
Segundo o especialista, episódios como esse não são comuns, justamente porque piscinas regulares seguem protocolos rígidos de controle químico, com medição constante de pH, alcalinidade e cloro livre.
“Isso não acontece quando há profissional capacitado. O que leva a uma tragédia é a falta de formação técnica e o manuseio amador de um produto que pode matar”, disse.
Machado ressaltou que o tratamento da água deve ser feito antes da entrada dos usuários, com tempo suficiente para homogeneização dos produtos, e nunca durante o uso da piscina.
Investigação
O caso é investigado pelas autoridades. A academia onde ocorreu o episódio estaria sem alvará de funcionamento, segundo informações preliminares. A polícia apura possíveis falhas técnicas, uso irregular de produtos químicos e eventual responsabilidade criminal.
Especialistas reforçam que piscinas são ambientes seguros quando seguem normas sanitárias, mas podem se tornar extremamente perigosas quando há negligência no controle químico da água.