No Canal Livre deste domingo (22), a Monja Coen aprofundou o debate sobre a sociedade de consumo em um diálogo direto com o jornalista Fernando Mitre e Adriana Araújo. O foco saiu do desapego afetivo e mergulhou na necessidade humana de acumular bens para preencher lacunas existenciais — o que a Monja define como um ciclo perigoso de "cola" emocional.
Equívoco da riqueza
A conversa ganhou contornos filosóficos quando se discutiu a base grega da felicidade: a redução das necessidades. Coen foi enfática ao associar o consumismo desenfreado a quadros contemporâneos de saúde mental.
"A pessoa deprimida estoura o cartão de crédito porque acha que, se tiver coisas, esse vazio interior será preenchido. Mas não preenche", alertou a Monja. "Por que alguém acha que ter dez ou vinte carros caríssimos tem a ver com felicidade? A pessoa tem certeza disso porque existe uma propaganda massiva dizendo que, se você ganhar um milhão, será feliz. Mas, na verdade, você se torna prisioneiro."
Para ilustrar o peso da posse, Coen resgatou uma história da tradição budista sobre um homem rico que jogou sua fortuna no rio ao decidir seguir o caminho espiritual. Ao ser questionado por que não a doou aos pobres, ele foi cirúrgico: "Por que eu daria o meu problema para alguém?".
A Monja relembrou que sua própria jornada passou pelas redações, mencionando o período em que trabalhou no Jornal da Tarde sob o olhar de figuras como Fernando Mitre. Essa vivência no "mundo real" do jornalismo parece ter fundamentado sua visão crítica sobre como as notícias e o mercado moldam o desejo humano.
Para ela, a verdadeira comunicação vai além do lide ou da manchete. É o que o Zen chama de comunicação de "coração para coração". Ela narrou o episódio em que Buda, em vez de falar, apenas levantou uma flor e sorriu. Apenas um discípulo sorriu de volta. "O professor não te dá nada; ele apenas reconhece que você já chegou lá", explicou.
"Grande vazio"
Ao final, Coen explicou a Mitre e Adriana o conceito de vazio no budismo — não como uma "falta" depressiva, mas como o ponto onde terminam as palavras e os conceitos.
Ela citou a metáfora de um lugar onde o mundo das ideias acaba: "O Zen se atira nesse nada onde as palavras não chegam mais. É o estado antes de pensarmos como pensamos hoje."
Ao atingir essa essência, a Monja afirma que o indivíduo percebe que sua vida é a mesma vida de toda a Terra. "Você se sente comungando com vivos e mortos."
A entrevista no Canal Livre deixou claro que, para Coen, o desapego material não é sobre pobreza, mas sobre liberdade. Em um mundo que grita para que tenhamos cada vez mais, a paz pode estar justamente no silêncio de não precisar de nada.