O caso da jovem Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, que morreu após passar mal em uma piscina de academia na Grande São Paulo, trouxe à tona uma dúvida comum entre frequentadores: se o cloro é essencial para a limpeza da água, por que o uso exagerado pode ser perigoso e até fatal?
Segundo especialistas, o cloro é um dos principais aliados da saúde pública no tratamento de piscinas, mas só é seguro quando utilizado dentro de parâmetros técnicos rigorosos. Fora disso, ele deixa de proteger e passa a representar risco.
Qual é a função do cloro na piscina?
De acordo com o químico com doutorado em saúde pública Rogério Machado, da Escola de Engenharia do Mackenzie, o cloro é utilizado porque tem alto poder saneante.
“O cloro existe para matar micro-organismos. Ele elimina bactérias, fungos, vírus e parasitas que podem causar doenças de pele, olhos, ouvidos e infecções gastrointestinais”, explicou o especialista em entrevista à BandNews FM.
Nas piscinas, o produto mais comum é o hipoclorito de cálcio, um composto sólido que, ao ser dissolvido na água, libera cloro livre, responsável pela desinfecção.
Sem esse controle químico, a água pode se tornar um ambiente propício para proliferação de microrganismos, aumentando o risco de micoses, conjuntivites, otites e outras infecções.
Por que mais cloro não significa mais limpeza?
Apesar de sua função essencial, Rogério Machado alerta que o cloro não pode ser usado em excesso, pois ele não “limpa melhor” quando está acima do recomendado.
“O cloro não é inteligente. Ele mata micro-organismos, mas também agride tecidos humanos. Em excesso, passa a ser tóxico”, afirmou.
Quando há superdosagem, especialmente em piscinas aquecidas ou em ambientes fechados, o cloro pode se transformar rapidamente em gás cloro, que se dispersa no ar e é inalado pelos usuários.
Esse gás é altamente irritante e pode provocar danos graves ao sistema respiratório.
O papel do pH e do controle químico
Outro ponto fundamental destacado pelo especialista é o equilíbrio do pH da água. Mesmo com a quantidade correta de cloro, um pH desregulado pode potencializar os efeitos nocivos.
“Se a água está muito ácida, o cloro fica mais agressivo. Os olhos queimam, a pele arde e as vias respiratórias sofrem”, explicou Machado.
Por isso, o tratamento de piscinas envolve mais do que apenas adicionar cloro. É necessário controlar:
- Cloro livre
- pH
- Alcalinidade
- Temperatura da água
- Ventilação do ambiente
Qualquer falha nesse processo pode transformar um produto de proteção em um agente de intoxicação.
Cheiro forte é sinal de alerta, não de limpeza
Um erro comum é associar o cheiro forte de cloro à ideia de água limpa. Segundo o químico, isso é um mito perigoso.
“Piscina não pode ter odor químico intenso. Se tem cheiro forte, já está errado. Esse cheiro indica cloro em excesso ou liberação de gás”, afirmou.
Em situações como a relatada por testemunhas no caso de Santo André — com ardor nos olhos, nariz, pulmões e vômitos — o correto é não entrar na piscina e sair imediatamente do local.
Ambientes fechados aumentam o risco
Piscinas cobertas ou com pouca ventilação exigem cuidados ainda maiores. Sem exaustão adequada, o gás cloro pode se concentrar no ambiente.
“Esse tipo de produto não pode ficar no ar. Se não houver exaustão, a pessoa começa a inalar o gás e passa mal rapidamente”, alertou Rogério Machado.
Crianças, idosos, gestantes e pessoas com asma, rinite ou outras doenças respiratórias são ainda mais vulneráveis.
Uso técnico é questão de segurança
Especialistas reforçam que o cloro não é o vilão, desde que seja utilizado por profissionais capacitados, com equipamentos adequados e medições constantes.
“O problema não é o produto, é a falta de formação técnica. Quando alguém pensa ‘vou colocar mais para limpar melhor’, está flertando com a tragédia”, concluiu o químico.
O caso segue sob investigação, mas o episódio serve de alerta: em piscinas, excesso de cloro não é sinônimo de limpeza — é sinal de perigo.